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O cliente disse não. O que você faz nos segundos seguintes pode piorar ou melhorar a conversa

Em Objeções, Jeb Blount discute um momento que faz parte de praticamente toda rotina comercial: quando o comprador hesita, resiste ou rejeita uma proposta. O livro é menos interessante como coleção de respostas prontas e mais útil como treinamento para lidar melhor com aquilo que acontece antes de responder.

Jefferson Severino Pereira23/08/20269 min de leitura
Capa do livro Objeções, de Jeb Blount

“Está caro.”

“Preciso conversar com meu sócio.”

“Vou pensar e depois retorno.”

“Agora não é o momento.”

Quem vende há algum tempo conhece frases desse tipo. A dificuldade está em descobrir o que fazer depois de ouvi-las.

Uma reação bastante comum é entrar imediatamente em modo de defesa. O vendedor explica novamente os benefícios, justifica o preço, oferece desconto ou começa a combater a objeção antes de saber se compreendeu o que incomoda o cliente.

Objeções: como se tornar um mestre na arte e na ciência de superar um não, de Jeb Blount, dedica boa parte de sua atenção justamente a esse intervalo entre ouvir a resistência e decidir como reagir.

E talvez seja aí que esteja a parte mais útil do livro.

Uma objeção nem sempre significa aquilo que parece

Quando alguém diz que uma proposta está cara, preço pode realmente ser o problema.

Também pode acontecer de o cliente não ter percebido valor suficiente, estar comparando soluções diferentes, não possuir orçamento naquele momento ou simplesmente usar o preço como maneira educada de encerrar uma conversa.

Responder a todas essas situações da mesma forma dificilmente produzirá bons resultados.

O livro trabalha a ideia de compreender resistência e utilizar estruturas para conduzir a conversa, em vez de depender apenas de frases decoradas. Blount também dedica espaço ao comportamento do próprio vendedor diante da rejeição, algo relevante porque receber um não não é apenas uma questão técnica.

Existe emoção envolvida.

Quem passou vários dias trabalhando numa proposta pode sentir necessidade de defendê-la. Quem está abaixo da meta talvez pressione mais do que deveria. Um profissional inseguro pode aceitar imediatamente a primeira resistência como encerramento definitivo.

Nenhuma dessas reações ajuda muito a compreender o comprador.

O famoso “quarto de segundo” tem uma ideia simples por trás

Um dos conceitos apresentados por Blount é o que ele chama de “quarto de segundo mágico”. O nome é chamativo, mas a aplicação é bastante compreensível: criar um pequeno espaço entre ouvir uma objeção e reagir a ela.

Esse intervalo reduz a chance de responder por reflexo.

Na rotina comercial, isso pode significar ouvir a frase inteira, evitar interromper, controlar a expressão de frustração e procurar entender o contexto antes de argumentar.

Parece elementar. Nem sempre é.

Uma negociação importante coloca vendedor e comprador sob algum grau de tensão. Quanto maior a pressão pelo fechamento, mais tentador se torna preencher qualquer silêncio com uma nova justificativa.

Aprender a ficar confortável alguns segundos antes de responder pode fazer mais pela qualidade da conversa do que encontrar uma frase especialmente engenhosa.

“Está caro” não deveria disparar automaticamente um desconto

A objeção de preço merece atenção porque é frequente e também porque pode custar dinheiro quando tratada de forma precipitada.

Se um vendedor reduz o valor na primeira resistência, transmite algumas mensagens sem perceber. Uma delas é que havia margem para cobrar menos. Outra é que o preço talvez não estivesse tão bem fundamentado.

Há situações em que negociar preço faz parte do processo e desconto pode ser comercialmente racional. A questão é saber por que ele está sendo concedido.

Antes de alterar uma proposta, normalmente é mais útil descobrir como o cliente chegou àquela percepção.

Ele está comparando com quê? O orçamento disponível é realmente inferior? Alguma parte da solução não parece necessária? O problema está no valor total ou nas condições?

Essas informações permitem uma conversa melhor do que responder imediatamente com um novo número.

A intenção não deveria ser derrotar o comprador

O título brasileiro fala em “superar um não”, e a linguagem promocional em torno do livro por vezes é bastante combativa.

Eu faria uma leitura menos literal.

Uma boa negociação não deveria terminar com o vendedor comemorando que conseguiu vencer a resistência de alguém que não precisava comprar.

Há objeções que podem ser esclarecidas e há objeções perfeitamente legítimas. Um cliente pode não ter orçamento, não possuir urgência, encontrar uma solução mais adequada ou concluir que a proposta não atende à necessidade.

Nesse caso, insistir melhor não transforma automaticamente a venda em uma boa venda.

O valor das técnicas está principalmente nas situações em que existe interesse, mas alguma dúvida, percepção de risco ou dificuldade de decisão impede o avanço da conversa.

É uma distinção importante porque transforma “superar objeções” em algo menos próximo de convencer a qualquer custo.

O medo da rejeição começa antes da objeção

Blount dedica atenção considerável ao desconforto provocado pelo não.

Isso não afeta apenas o momento do fechamento.

Há vendedores que evitam fazer uma pergunta difícil porque receiam a resposta. Outros adiam o pedido de compromisso, continuam apresentando informações que o cliente já entendeu ou encerram uma conversa sem definir próximo passo.

Em alguns casos, a tentativa de evitar a rejeição faz com que o profissional evite justamente as conversas necessárias para descobrir se existe negócio.

Essa parte do livro pode ser particularmente útil para profissionais que não se veem como “vendedores tradicionais”, caso de muitos consultores, autônomos e donos de pequenas empresas.

Eles conhecem aquilo que oferecem, mas não necessariamente tiveram formação para lidar com a tensão de uma negociação.

Estrutura é diferente de roteiro

Um aspecto que considero positivo na proposta de Blount é trabalhar com estruturas adaptáveis, em vez de apresentar uma resposta universal para toda objeção.

Há uma boa razão para isso.

A conversa de um representante vendendo equipamentos industriais é diferente da negociação de um consultor, que por sua vez difere da venda de um serviço mensal para uma pequena empresa.

Mesmo a frase “preciso pensar” pode significar coisas diferentes em dois clientes atendidos no mesmo dia.

Roteiros têm utilidade para treinamento e podem ajudar quem ainda não sabe como começar uma conversa. Tornam-se problemáticos quando o vendedor está mais preocupado em lembrar a próxima frase do que em prestar atenção no que o cliente acabou de dizer.

Nesse sentido, eu aproveitaria Objeções como repertório para pensar melhor durante a negociação, não como um conjunto de falas que precisam ser reproduzidas palavra por palavra.

Quando este livro provavelmente ajuda mais

A leitura tende a ser útil quando já existem conversas comerciais acontecendo.

Clientes pedem informações, reuniões acontecem e propostas são enviadas, mas o profissional sente dificuldade quando surgem resistência, preço, adiamento ou hesitação.

Também vejo aplicação para gestores que percebem padrões na equipe, como descontos oferecidos cedo demais, vendedores que evitam pedir compromissos ou negociações que terminam sempre em um vago “depois falamos”.

Nesses casos, existe material concreto ao qual os conceitos do livro podem ser aplicados.

A prioridade muda quando o problema está antes disso.

Se quase ninguém chega à reunião ou solicita uma proposta, talvez a empresa não esteja sofrendo de falta de habilidade para trabalhar objeções. Pode simplesmente estar gerando poucas oportunidades.

Nesse cenário, nossa análise de Prospecção Fanática, também de Jeb Blount, trata de um problema mais próximo: criar uma rotina consistente para iniciar novas conversas comerciais.

Conheça nossa análise de Prospecção Fanática

Algumas objeções não devem ser revertidas

Esse talvez seja um dos cuidados mais importantes ao colocar as ideias do livro em prática.

Nem todo cliente é um cliente adequado.

Se a solução não atende ao que ele precisa, se a empresa não consegue entregar o prometido ou se há incompatibilidade evidente entre expectativa e serviço, transformar o não em sim pode produzir um contrato ruim para os dois lados.

Pequenas empresas sentem esse problema com particular intensidade porque um cliente inadequado pode consumir uma quantidade desproporcional de tempo da equipe.

Portanto, saber lidar com objeções também inclui reconhecer quando a resistência revela um problema que não deveria ser contornado.

Uma boa técnica comercial deveria melhorar a qualidade da decisão, e não apenas aumentar o número de decisões favoráveis ao vendedor.

Nossa avaliação de Objeções

Objeções é um livro bastante específico, e isso joga a favor dele.

Em vez de tentar cobrir toda a venda, Blount concentra a discussão num dos momentos mais desconfortáveis do processo: quando o comprador resiste e o profissional precisa decidir como continuar a conversa.

Há técnicas, estruturas e conceitos próprios do autor, mas eu não colocaria o maior valor da leitura na capacidade de decorar respostas.

A contribuição mais interessante está em desenvolver uma reação menos automática ao não.

Ouvir melhor, identificar o que realmente está sendo questionado, manter controle emocional e escolher a resposta conforme o contexto são habilidades menos espetaculares do que uma “fórmula para fechar qualquer venda”, mas muito mais úteis no trabalho cotidiano.

Para vendedores, consultores, prestadores de serviços e empresários que já chegam à mesa de negociação e percebem que perdem qualidade justamente quando aparece resistência, é uma leitura que faz sentido.

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Capa do livro Objeções, de Jeb Blount

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